O dia apresentava-se chuvoso e, como sempre o são os dias assim, sombrio. O tráfego era aceitável para um início de tarde – pouco passava da uma – e deslizava moderadamente. Mais uns 60 Kms e chegaria à escola sem imprevistos. Contrariando o mau humor meteorológico, ela trauteava, flutuando ao som da doce voz da Susana Félix que a acompanhava no trajecto através das ondas de FM. "Flutuo, consigo deslindar o meu gosto sem esforço, balanço é o que a maré me dá e eu não contesto, o meu destino está fora de mim e eu aceito...flutuo".
Sem um pré-aviso, um ténue sinal de alerta, o automóvel tomou as rédeas do destino e deixou de obedecer ao seu comando. Não houve tempo para pensar sequer e ela não pode senão abandonar-se aos desmandos da mecânica, flutuando. A lei de Murphy encarregou-se do resto e o veículo descreveu o trajecto perfeito de forma a embater no primeiro que se apresentou em sentido contrário. A presença de pessoal pertence ao Inem na fila que se imobilizou na faixa de rodagem, facultou uma maior celeridade ao processo de socorro e, passados dez minutos, quatro ambulâncias recolheram os cinco feridos, alguns menos ligeiros que outros. Ninguém corria perigo de vida., menos-mal! Os veículos estavam em perfeitas condições para engrossar os despojos de uma qualquer sucata.
O marido foi avisado e tratou de se apresentar no local o mais rápido que pode. Depois de se inteirar da situação avisou um dos familiares com indicações expressas para que não avisasse mais ninguém enquanto não houvesse informações precisas. A acidentada estava em observações assim como os restantes 4 feridos.
A campainha tocou. O relógio rondava as 17H00. O pai levantou-se e foi abrir. A mãe espreitou pela janela para ver quem era. Ninguém conhecido mas seria certamente um vendedor de colchões ou de pacotes de férias. O perfil encaixava no protótipo.
-Boa tarde.
-Boa tarde, faça favor.
- Desculpe, a Sra. Dª Joana Figueiredo mora nesta casa?
- Não mora. Porquê?
-Mas é sua filha?
-Por que deseja saber?
-Sou representante da Vokswagen de Aveiro e acabei de presenciar um acidente na IC 24. Tive oportunidade de ver o carro da Dª Joana acidentado e sem reparação possível. Venho, portanto, apresentar os meus serviços para a substituição do mesmo.
A esta altura do meu relato, seria suposto dar início ao rosário de impropérios a maldizer a destemperança moral que assume, de forma assustadora, os comportamentos humanos. Não me apetece. Não quero tentar entender. Não quero avaliar. Não quero julgar. Não quero. Simplesmente! Sei, no entanto que não demorará muito tempo até que depois de um acidente de viação, nos apareça à porta do hospital, um sujeito engravatado representando uma agência de casamentos, de catálogo em punho, ilustrando belos exemplares de homens e mulheres, e, imbuído do melhor espírito profissional, publicitando com a maior das naturalidades e ciente da sua imbatível eficiência, nos dirá: – Fui informado que a sua mulher ficou danificada no acidente que sofreu e provavelmente não terá reparação. Peço a sua atenção para este magnífico catálogo de exemplares disponíveis no mercado para troca imediata e a preços extraordinários e imbatíveis. Garanto-lhe que não encontrará melhor negócio na concorrência!
Resta-me apenas o desabafo da ordem – PQP esta merda de gente!