segunda-feira, 20 de abril de 2009

ESTRATEGIA DE MERCADO OU FALÊNCIA DA MORAL

O dia apresentava-se chuvoso e, como sempre o são os dias assim, sombrio. O tráfego era aceitável para um início de tarde – pouco passava da uma – e deslizava moderadamente. Mais uns 60 Kms e chegaria à escola sem imprevistos. Contrariando o mau humor meteorológico, ela trauteava, flutuando ao som da doce voz da Susana Félix que a acompanhava no trajecto através das ondas de FM. "Flutuo, consigo deslindar o meu gosto sem esforço, balanço é o que a maré me dá e eu não contesto, o meu destino está fora de mim e eu aceito...flutuo".
Sem um pré-aviso, um ténue sinal de alerta, o automóvel tomou as rédeas do destino e deixou de obedecer ao seu comando. Não houve tempo para pensar sequer e ela não pode senão abandonar-se aos desmandos da mecânica, flutuando. A lei de Murphy encarregou-se do resto e o veículo descreveu o trajecto perfeito de forma a embater no primeiro que se apresentou em sentido contrário. A presença de pessoal pertence ao Inem na fila que se imobilizou na faixa de rodagem, facultou uma maior celeridade ao processo de socorro e, passados dez minutos, quatro ambulâncias recolheram os cinco feridos, alguns menos ligeiros que outros. Ninguém corria perigo de vida., menos-mal! Os veículos estavam em perfeitas condições para engrossar os despojos de uma qualquer sucata.
O marido foi avisado e tratou de se apresentar no local o mais rápido que pode. Depois de se inteirar da situação avisou um dos familiares com indicações expressas para que não avisasse mais ninguém enquanto não houvesse informações precisas. A acidentada estava em observações assim como os restantes 4 feridos.
A campainha tocou. O relógio rondava as 17H00. O pai levantou-se e foi abrir. A mãe espreitou pela janela para ver quem era. Ninguém conhecido mas seria certamente um vendedor de colchões ou de pacotes de férias. O perfil encaixava no protótipo.
-Boa tarde.
-Boa tarde, faça favor.
- Desculpe, a Sra. Dª Joana Figueiredo mora nesta casa?
- Não mora. Porquê?
-Mas é sua filha?
-Por que deseja saber?
-Sou representante da Vokswagen de Aveiro e acabei de presenciar um acidente na IC 24. Tive oportunidade de ver o carro da Dª Joana acidentado e sem reparação possível. Venho, portanto, apresentar os meus serviços para a substituição do mesmo.
A esta altura do meu relato, seria suposto dar início ao rosário de impropérios a maldizer a destemperança moral que assume, de forma assustadora, os comportamentos humanos. Não me apetece. Não quero tentar entender. Não quero avaliar. Não quero julgar. Não quero. Simplesmente! Sei, no entanto que não demorará muito tempo até que depois de um acidente de viação, nos apareça à porta do hospital, um sujeito engravatado representando uma agência de casamentos, de catálogo em punho, ilustrando belos exemplares de homens e mulheres, e, imbuído do melhor espírito profissional, publicitando com a maior das naturalidades e ciente da sua imbatível eficiência, nos dirá: – Fui informado que a sua mulher ficou danificada no acidente que sofreu e provavelmente não terá reparação. Peço a sua atenção para este magnífico catálogo de exemplares disponíveis no mercado para troca imediata e a preços extraordinários e imbatíveis. Garanto-lhe que não encontrará melhor negócio na concorrência!
Resta-me apenas o desabafo da ordem – PQP esta merda de gente!

12 comentários:

Mofina Mendes disse...

Resta um consolo: Ainda há gente que nunca se atrasar...

Blimunda disse...

E será que se pode chamar consolo? Por vezes o ser célere não significa ser atempado.

Blimunda disse...

Menina, está a dever-me umas informações, não? Aguardo o relatório poético ou pensas que me esqueci?!!!

jg disse...

Não é "ou" é "e".

Blimunda disse...

Tenho que te dar razão, Jg, mas apenas porque só agora me apercebi que me esqueci do ponto de interrogação. Assim como está, depende do ponto de vista. Tanto pode ser "ou" como "e" como ainda "ou/e"

saphou disse...

Tem razão, PQP esta gente,hoje em especial!

mac disse...

Blimunda, nem sei que dizer... Porque há muito, ou se calhar muito pouco, a dizer.

Venha o Diabo e escolha.

Blimunda disse...

Nem eu, Mac! Mas só aqui convosco. Se a alminha tinha tido a malfadada ideia de vir bater à minha porta, ou de dar de caras comigo na porta em que bateu, garanto-lhe que teria muito, mas mesmo muito para lhe dizer.

privada disse...

Fogo que efeciencia, po, melhor que aquela das agencias funerarias enviadas a casa do morto pelos hospitais, a W a dar cartas

Blimunda disse...

Também acho privada! Mas bom bom vai ser quando vierem as agências de casamentos ou acasalamentos.

privada disse...

:-)))) Sim ahhahahah demais tipo o seu marido morreu? A nossa agencia tem todo o prazer de lhe apresentar um catalogo de maridos espanhois e repare que só a nossa agencia tem este protocolo, a 1/3 do preço só tem que adquirir por atacado. Eh pá demais , é negocio Blimunda temos ke apostar nisso, ei conheço tanta miuda pá com maridos mortos, é melhor k o negocio da ganza

Blimunda disse...

Tou por tudo, pá! Além de que não será preciso que o homem ou a mulher morram completamente. À semelhança do carro que não estava compeltamente morto, só tava todo partido e pronto, basta que o gajo ou gaja morram só um boacinho que fiquem assim avariados e à vista sem reparação, que já é de atacar. É negócio para criar uns bons resultados financeiros, quem sabe até, dar lucros. Podiamos até investir nun offshore, Privada, heim! Eh pá, de repente parece que se me fez luz! Vamos enriquecer!!! O BPN ainda funciona? Falamos com a Dias & Loureiro, pá, tenho lá uns amigos , uns mohamedes e tal, acho que temos futuro.