quinta-feira, 11 de dezembro de 2008

VIOLÊNCIA OU EDUCAÇÃO

Há cerca de duas semanas relatei em post um episódio entre um adulto e uma criança intranquila e rebelde ao qual dei o título de “Educação ou Violência”. Não referi, no entanto, que a reacção à bofetada que a criança infligiu ao adulto como resposta à sua advertência verbal foi devolver-lhe a bofetada, evidentemente com a intensidade adequada à idade da criança. O caso foi, como seria de esperar, polémico. Depois das devidas explicações e pedidos de desculpa ao grupo de educadores incluindo os progenitores o adulto encerrou a questão de bem com a sua consciência.

Passadas as mesmas duas semanas, a criança dá de caras, pela primeira vez depois do incidente, com o mesmo adulto. De olhar tímido e apreensivo a criança estancou a sua correria ao deparar-se com a pessoa que lhe dera uma bofetada há uns dias atrás, esta por sua vez, abraçando o seu próprio filho. Apercebendo-se do constrangimento da criança, o adulto chamou-o dizendo-lhe que era seu amigo e que podia aproximar-se porque gostava muito dele. A criança, aliviada aproximou-se e disse-lhe: “Mas eu bati-te e belisquei-te.” O adulto abraçou-o e disse-lhe: “Pois foi e sabes que isso não se deve fazer nunca”. A criança acena afirmativamente com a cabecita e pergunta com a maior simplicidade e honestidade: “ E tu desculpas-me?”.

É irrelevante o relato da restante conversa porque o essencial está dito. Criança e adulto desculparam-se mutuamente e acabou ali, antes de começar, uma guerra. Estou certa de que aquela criança não voltará a esquecer a bofetada que recebeu em troca da que deu. Estou certa de que o objectivo daquela bofetada foi atingido e, mais do que tudo, estou certa de que foi educação e nunca violência. Estou certa, ainda, de que se os adultos entre si tivessem a imensurável sabedoria e desinteressada humildade das crianças a vida seria muito mais aprazível para todos, crianças e adultos.

9 comentários:

jg disse...

Quase há 2000 anos ainda tentaram fazer vingar o modelo de quando te fossem à cara devias oferecer a parte que tinha escapado.
Deu em nada.
Melhor, deu na multinacional que todos conhecemos e que faz crucifixos para todo o mundo.
Nunca vi um crucifixo que não fosse da marca "INRI".

Mofina Mendes disse...

Anda aqui um cheiro a espírito natalício que considero a hipótese de me pôr ao fresco e só regressar lá pelo entrudo.

Blimunda disse...

Se houvesse alguma esperteza por eese mundo fora muito dinheirinho se podia ter ganho em processos de contra-ordenação por violação de direitos de autor ou de uso indevido de marca registada, de tantos os possíveis significados de INRI.

Póisé JG! É sabido que se me fossem à cara era menina para nem tal coisa me passar pela tola. Olha agora se eu ia oferecer a parte que tinha escapado para depois ficar sem nenhuma, caso precisasse?! Ó Ó, até o barack obama!

Jardineira aprendiz disse...

Este teu post fez-me lembrar as pobres crianças australianas (se não me engano) que até já ficam traumatizadas com os riscos de uma caneta vermelha...

Eu não tenho filhos, mas a minha experiência com crianças não é nula e sempre achei que os limites são tão importantes como o afecto, dão-lhes segurança. Hoje em dia confunde-se violência com disciplina, confunde-se tudo...

DD disse...

Eu sou muito versada nesse tipo de "violência educativa": dia sim, dia sim, levava cada palmada da minha mãe nestas "nalgas" que a terra há-de comer!!!

Digo que foram educativas, porque não me sobrou qualquer trauma. Também se sobrasse alguma coisa, nem saberia que nome lhe dar... no meu tempo não tinham sido inventados os traumas.

E desde o dia em que ouvi o sermão dizer que eu deveria oferecer a outra "nalga", comecei a planear seriamente o abandono das missas, coisa que fiz logo que me emancipei, lá pelos 25 anos de idade.

Na história da Blimunda, admiro a criança. Estou em crer que ela é a verdadeira heroína, ainda que com a ajuda sensata do adulto. Se a criança não tivesse experimentado o erro, ia acreditar que ele existia só porque assim lhe diziam?

DD disse...

Ah, agora me lembro! A invenção dos traumas deu-se quando eu tinha aí uns 14 anos e achei que era um bom motivo para começar a fumar.
E foi aí que apareceu outra vez a minha mãe e fez-me um ultimato: "Ó minha menina, ou os traumas ou os cigarros. Não podes ter tudo."
Até agora ainda não me arrependi de fumar.

Blimunda disse...

DD, é incontestável que me tens sido de crucial ajuda psocológica. Foram precisos estes anos todos, desde os meus, iguais aos teus, 14, para finalmente entender porque é que não tenho traumas. Não posso dizer que tive a preciosa ajuda materna para fazer a escolha mas escolhi. Agora chamar-lhe arrependimento não chamo mas sinceramente gostava de ter tido mais opções de escolha. Entre trauma ou cigarros podia ter sido, por exemplo, trauma ou óleo de figado de bacalhau. Eh lá! Acabei de descobrir que tenho um trauma - óleo de fígado de bacalhau. rsrsrs

Mofina Mendes disse...

Como diz a minha mãe, só se perdem as que caem no chão!

DD disse...

Ó Blimunda, esse tal de óleo de fígado de bacalhau era assim tipo umas boas litradas de cálcio engarrafado? Fiquei de tal forma enjoada disso, que só não sou hoje copinho de leite graças ao bendito Milo.

Mofina, a tua mãe deve estar a referir-se às bolotas. Ou não?