quarta-feira, 28 de abril de 2010

O CÉU VAI CAIR


Depois das declarações do P.M. e do Pedro Passos Coelho, julgo que não há mesmo nada a dizer.

domingo, 25 de abril de 2010

SOBE QUE SOBE

Calçada de Carriche

Luísa sobe,
sobe a calçada,
sobe e não pode
que vai cansada.
Sobe, Luísa,
Luísa, sobe,
sobe que sobe
sobe a calçada.
Saiu de casa
de madrugada;
regressa a casa
é já noite fechada.
Na mão grosseira,
de pele queimada,
leva a lancheira
desengonçada.
Anda, Luísa,
Luísa, sobe,
sobe que sobe,
sobe a calçada.
Luísa é nova,
desenxovalhada,
tem perna gorda,
bem torneada.
Ferve-lhe o sangue
de afogueada;
saltam-lhe os peitos
na caminhada.
Anda, Luísa.
Luísa, sobe,
sobe que sobe,
sobe a calçada.
Passam magalas,
rapaziada,
palpam-lhe as coxas
não dá por nada.
Anda, Luísa,
Luísa, sobe,
sobe que sobe,
sobe a calçada.
Chegou a casa
não disse nada.
Pegou na filha,
deu-lhe a mamada;
bebeu a sopa
numa golada;
lavou a loiça,
varreu a escada;
deu jeito à casa
desarranjada;
coseu a roupa
já remendada;
despiu-se à pressa,
desinteressada;
caiu na cama
de uma assentada;
chegou o homem,
viu-a deitada;
serviu-se dela,
não deu por nada.
Anda, Luísa.
Luísa, sobe,
sobe que sobe,
sobe a calçada.
Na manhã débil,
sem alvorada,
salta da cama,
desembestada;
puxa da filha,
dá-lhe a mamada;
veste-se à pressa,
desengonçada;
anda, ciranda,
desaustinada;
range o soalho
a cada passada,
salta para a rua,
corre açodada,
galga o passeio,
desce o passeio,
desce a calçada,
chega à oficina
à hora marcada,
puxa que puxa,
larga que larga,
puxa que puxa,
larga que larga,
puxa que puxa,
larga que larga,
puxa que puxa,
larga que larga;
toca a sineta
na hora aprazada,
corre à cantina,
volta à toada,
puxa que puxa,
larga que larga,
puxa que puxa,
larga que larga,
puxa que puxa,
larga que larga.
Regressa a casa
é já noite fechada.
Luísa arqueja
pela calçada.
Anda, Luísa,
Luísa, sobe,
sobe que sobe,
sobe a calçada,
sobe que sobe,
sobe a calçada,
sobe que sobe,
sobe a calçada.
Anda, Luísa,
Luísa, sobe,
sobe que sobe,
sobe a calçada.

António Gedeão, Poesias Completas (1956-1967)

quinta-feira, 22 de abril de 2010

SEMPRE MESTRE

Apesar de o ser humano ser egoísta por natureza é, de igual monta, o mais dependente dos seus pares. Só se realiza em sociedade.

Não têm sido poucas as vezes em que o Mestre manifesta desprezo pelas eventuais avaliações que de si possam fazer os outros. Ora, no meu humilde a roçar o orgulhoso entendimento, esta é uma forma falaciosa de contornar a desprezível dependência que todos nós sentimos da avaliação alheia.
Recordo um outro post seu (quem somos nós sem esse pilar de sabedoria que nos alenta o caminho?) nascido, do mesmo modo, da atribuição de um qualquer prémio, em que desfere duros ataques aos seus comentadores, atestando a sua total indiferença e desprezo pelo que pensam os outros da sua escrita. Na altura discordei, alegando que a sua escrita só existe porque alguém a lê e a comenta, caso contrário não existe, é nula. Fazendo os devidos paralelismos, entendo que a auto-suficiência da sua auto-avaliação é fraudulenta já que a segunda não é válida senão por oposição ao conceito geral da avaliação pública e exógena. No momento em que o Mestre radicaliza a máxima sofista de que o homem é a medida de todas as coisas, reclamando-a si mesmo, entra em total contradição com a natureza humana e, por conseguinte, consigo próprio. Em que códigos se procuram os valores para a avaliação, seja ela endógena ou exógena? Avaliamo-nos sempre por comparação, seja connosco mesmos seja com os outros. O sucesso ou insucesso é determinado por uma tabela de valores que nos foi imposta extrinsecamente e que se aplica e regulamenta os nossos comportamentos da mesma forma que se aplica e regulamenta os dos outros. Para ajuizarmos sobre determinado valor pessoal, fazemo-lo transpondo esse valor para o outro e calculando o que o outro ajuizaria sobre o mesmo valor. A auto-estima nasce da consciência que temos das nossas potencialidades por oposição ao conceito geral que nos é incutido pelos outros, através de avaliações e comparações externas. Ora, assim sendo, não vejo como se conseguir o radical corte com o julgamento alheio. Se nos auto-julgamos por tabelas de juízos que nos são impostas pelo exterior, entendo ser completamente descabida de sentido a pretensão de se ser único juiz em causa própria e achar que só esse julgamento será válido, verdadeiro e justo.

Na generalidade partilho da posição do Mestre sobre o poder do julgamento dos outros sobre mim própria. Não vivo por ele nem para ele. No entanto, e lamento profundamente que assim seja, tenho que admitir que não possuo o fardo das divinas omnipotência, omnisciência e omnipresença sobre os ombros. Sou simplesmente humana. Confesso que não encontro qualquer ligação entre os temas debatidos, tanto nos posts referidos do Mestre como neste próprio post, com o conceito que tenho sobre os sentimentos de orgulho e de humildade.

terça-feira, 20 de abril de 2010

FACEBOOM

Andava eu a bisbilhotar o que faz a malta pelas ruas do Faceboom e deparo com alguém que é amigo de um amigo que enviou um convite à Blimunda para ser sua amiga, embora fosse mentira, porque já o era antes de o ser, (palavras do primeiro e não da segunda) e dou de caras com esta coisa bonita de morrer:

"EU TENHO UM ENORME ORGULHO DE SER MULHER

Página de todas as mulheres que têm orgulho em ser mulheres!A Mulher Activa, Mulher Bonita, Mulher Empreendedora, Mulher Trabalhadora, Mulher Independente, Mulher Empresária, Mulher Mãe, Mulher Esposa, Mulher Amiga, Mulher Desportista, Mulher Sexy, Mulher Criativa, Mulher Interessante, Mulher Corajosa, Mulher Inteligente, Mulher Positiva, Mulher de Sucesso, Mulher Feminina, Mulher Orgulhosa… Mulher MULHER!!!VAMOS JUNTAR NESTA PÁGINA O MAIOR NÚMERO DE MULHERES. Mulheres orgulhosas de serem...
(ler mais) Missão: Homenagear a Mulher!"

Ora bolas! Vá-se lá entender esta gente. Mas afinal o que vem a ser isso do orgulho?
Há quem defenda que Orgulho pode ser um sentimento de satisfação pela capacidade ou realização ou um sentimento elevado de dignidade pessoal. Pode, no entanto, ser o orgulho entendido tanto como uma atitude positiva como negativa dependendo das circunstâncias. Quanto a mim, esse sentimento surge da necessidade que alguém sente de se elogiar a si próprio e quando usado em quantidades excessivas, pode transformar-se em vaidade, ostentação, soberba e arrogância. Geralmente, os orgulhosos servem-se de um tipo de satisfação incondicional, super-estimando os seus próprios valores em detrimento dos dos outros, tornando-se, portanto, egoístas e egocentristas. É, basicamente, a compensação de um sentimento exagerado de insegurança. Quando alguém se sente muito inseguro e tem medo de não ser aceite ou de ser humilhado caso alguém perceba os defeitos que pensa ter, geralmente compensa-se através do orgulho. Este nada mais é do que uma necessidade imensa de mostrar aos outros que tem qualidades, que é melhor que alguém ou melhor que a maioria. Quando o amor-próprio e a auto-estima são reais, o orgulho desaparece, porque não há necessidade de se sobrepor a ninguém para auto-afirmação.
Ora, minhas caras 9.000 e não sei quantas mais fãs do clube “EU TENHO UM ENORME ORGULHO DE SER MULHER”, permitam a esta simplesmente mulher que quando nasceu já o era e, portanto, não contribuiu minimamente para o ser, vos diga que orgulho se pode ter de uma bela pintura que se expôs ou de um bom livro que se escreveu. A não ser que seja disso que se trata, não consigo entender estas mulheres.

Nunca gostei de floreados. Tão cedo não me apanham a laurear por esse mar de enganos, chamado “Faceboom”

segunda-feira, 19 de abril de 2010

BLIMUNDA VEM DE CARRINHO



Quando for a subir, vira-te ao contrário.

segunda-feira, 12 de abril de 2010

King Camp Gillette


— Boa tarde, é a senhora dona Elisiária?
— Eu sou pois atão...
— Trago-lhe a encomenda que pediu, é só assinar aqui, por favor.
— Hã? O meu patrão anda além, na Requeixada, eu não bulo em nada.
— Mas senhora dona Elisiária, permita-me, é só uma oferta com o modelo mais avançado de lâminas femininas.
— Sou lá mulher dessas coisas... Naaah, já tou servida, paguei metade e raparam-me o dobro. A bem dizer. Vossemecê sabe quanto é o dobro de metade?

quinta-feira, 8 de abril de 2010

PARA MAC COM AMIZADE II

Estaria ela a viver na sombra do seu corpo? Se a alma tem vida própria e o corpo não é senão o esqueleto que disfarça os seus contornos, teria esse corpo o direito de se chamar Mac? Passara o dia a olhar-se ao espelho e não conseguia detectar nenhum sinal dessa alma escondida nos sulcos da pele. Subitamente, assomou-se-lhe ao pensamento o poema de Alfred Tennyson e, com voz tonitruante, declama como se da sua voz dependesse o sucesso de mais meio século de existência.

The Eagle
HE clasps the crag with crooked hands;
Close to the sun in lonely lands,
Ringed with the azure world, he stands.

The wrinkled sea beneath him crawls;
He watches from his mountain walls,
And like a thunderbolt he falls.

A águia sempre desperta e alerta recusa-se a descer a sua montanha e eleva-se, sumptuosamente, em sua legítima altivez, dando grossa caça à desgraça e ao desalento. O derrubamento será sempre calculado e em sereno êxtase descerá os degraus da vida que erigiu e a cada lanço, orgulhosamente, repetirá: tudo isto é meu, tudo isto sou eu, tudo isto existe porque a verdade daqueles que agem como se não houvesse público, sempre me acompanhou.

PARA MAC COM AMIZADE

As pedras são para pôr à varanda a apanhar sol? claro que sim...
E quem não percebe isso, não percebe nada.
Nem pode dar conta de que uma pedra pode dar flor, couve flor, ou transformar-se em ananás cor de mel.
Não há como apagar a beleza de um lugar onde se está, se vive, e tem as horas sempre certas apenas pela inclinação lua.
Hoje, até o vizinho de cima é capaz de se pôr a assobiar ou a fazer bolinhas de sabão. A MAC merece!

terça-feira, 6 de abril de 2010

COMER SUCHI?


Talvez, mas só se for à lagareiro. Ou com molho de escabeche.