sexta-feira, 12 de dezembro de 2008

A VIDA EM APNEIA

Ensonada estica o braço e cala a voz decapadora de sonos que se esganiça da geringonça radiofónica do lado esgueira-se do quente dos lençóis cambaleante entra na casa de banho senta-se na sanita não precisam de saber para quê nem porquê dirige-se ao lavatório lava os dentes põe a água do chuveiro a correr tira o pijama toma o seu banho enxuga-se arrepiada penteia-se e seca o cabelo veste-se e dirige-se à cozinha coloca a taça de leite no micro-ondas retira-a coloca-lhe os cereais senta-se à mesa come os cereais levanta-se deposita a taça vazia na banca liga a máquina de café aquece a chávena no micro-ondas tira o café toma o café fuma um maldito cigarro dirige-se ao quarto das crianças mais um calvário para despertá-las do sono quinze minutos passados vence e finalmente rouba-as aos braços de Morfeu faz-lhes a higiene despe-lhes o pijama veste-as dá-lhes o pequeno almoço depois de ligar a televisão da cozinha para verem os bonecos enquanto comem prepara os lanches faz as camas pensa no que há-de fazer para o jantar vai ao congelador retira o saco de alimentos destinados à refeição nocturna coloca-o na parte debaixo do friogorifico pega nas mochilas e arrasta as crianças que resmungam porque não querem desligar a televisão descem as escadas entram no carro e finalmente não tendo em linha conta os passos autómatos esquecidos a este relato cada um enfiado o melhor que consegue dentro do seu casaco anti-inverno saem de casa.

Pedimos desculpa pela interrupção o programa segue dentro de momentos sendo certo que do tempo dos momentos nada mais sabemos de que tem tanto tempo quanto o tempo tempo tem.

4 comentários:

Mofina Mendes disse...

ufaaaaa...

DD disse...

Andas a ler Saramago?
Não, deve ser Lobo Antunes.
Vê se descansas um bocadinho no fim-de-semana, para regressares mais virgulada na segunda.
Que estafa!!!

mac disse...

Faz-me lembrar da
Luísa sobe, sobe a calçada,
sobe e não pode que vai cansada.

É certo que esse tem mais vírgulas mas tem também este mesmo cansaço automatizado que aflige.

Jardineira aprendiz disse...

Até agora nunca tinha percebido de onde vem a tendência para comer vírgulas...