Ontem, enquanto fazia o jantar, ia assistindo ao telejornal. Seguramente mais de 75% do tempo usado para as notícias e sempre na expectativa de ser informada sobre assuntos que deveras me interessassem, fui obrigada a assistir a um interminável e abjecto relato das reacções deste povo em que não me revejo, a uma denominada partida de futebol. Desliguei a televisão antes do final do espaço supostamente noticioso. Não minto se aqui deixar escrito que senti tristeza ao assistir às manifestações de alegria das muitas almas que ali vi, esperneando, puxando cabelos, agarrando a cabeça como se a solução das misérias pessoais estivesse na entrada da bola dentro das redes de uma baliza. Tristeza por saber que o fim desta humanidade é certo. Por suspeitar que enquanto o Homem não se convencer que os êxitos de uma nação não serão possíveis senão através dos pessoais e não dependem senão do esforço de cada um para o bem comum não haverá êxitos. A situação dramática em que vivem milhares de pessoas incluído um número obsceno de crianças não é suficiente para mobilizar meia dúzia de portugueses mas um desprezível jogo de futebol, em que cada uma das marionetes que por lá dançam articulando músculos a troco de milhões de euros é o suficiente para imobilizar um país inteiro.
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Desporto e Pedagogia
Diz ele que não sei ler
Isso que tem? Cá na aldeia
Não se arranjam dúzia e meia
Que saibam ler e escrever.
P'ra escolas não há bairrismo,
Não há amor nem dinheiro.
Por quê? Porque estão primeiro
O Futebol e o Ciclismo!
Desporto e pedagogia
Se os juntassem, como irmãos,
Esse conjunto daria,
Verdadeiros cidadãos!
Assim, sem darem as mãos,
O que um faz, outro atrofia.
Da educação desportiva,
Que nos prepara p'ra vida,
Fizeram luta renhida
Sem nada de educativa.
E o povo, espectador em altos gritos,
Provoca, gesticula, a direito e torto,
Crendo assim defender seus favoritos
Sem lhe importar saber o que é desporto.
Interessa é ganhar de qualquer maneira.
Enquanto em campo o dever se atropela,
Faz-se outro jogo lá na bilheteira,
Que enche os bolsinhos aos que vivem dela.
Convém manter o Zé bem distraído
Enquanto ele se entrega à diversão,
Não pode ver por quantos é comido
E nem se importa que o comam, ou não.
E assim os ratos vão roendo o queijo
E o Zé, sem ver que é palerma, que é bruto,
De vez em quando solta o seu bocejo,
Sem ter p'ra ceia nem pão, nem conduto.
António Aleixo, in "Este Livro que Vos Deixo..."