quarta-feira, 25 de novembro de 2009

UMA TEIA MOLHADA


Para quem tem a cabeça rapada
Para quem perde o fio e meada
Para quem fala de boca tapada
Para quem tem uma árvore cansada
Para quem olha e não vê nada

terça-feira, 24 de novembro de 2009

SONS ETERNOS



A 7 de Janeiro de 1982, estreava a série “Fame”. Foram muitos os meses de emoções fortes, de quimeras sonhadas para além do imaginável, do inatingível.
*****
Fame
I'm gonna live forever
I'm gonna learn how to fly High
I feel it coming together
People will see me and cry
Fame
I'm gonna make it to heaven
Light up the sky like a flame
Fame
I'm gonna live forever
Baby remember my name
*****
Passados 27 anos vibro com a mesma intensidade ou, talvez, de forma ainda mais irreverente e incontrolável, ao som dos acordes desta “Fame” renovada com vestes dos tempos modernos.
Sempre soube que existem sons que duram vidas inteiras.

sexta-feira, 20 de novembro de 2009

PARA O ”NOSSO” BORGEANO



Nadie rebaje a lágrima o reproche
esta declaración de la maestría
de Dios, que con magnífica ironía
me dio a la vez los libros y la noche.

De esta ciudad de libros hizo dueños
a unos ojos sin luz, que sólo pueden
leer en las bibliotecas de los sueños
los insensatos párrafos que ceden

las albas a su afán. En vano el día
les prodiga sus libros infinitos,
arduos como los arduos manuscritos
que perecieron en Alejandría.

De hambre y de sed (narra una historia griega)
muere un rey entre fuentes y jardines;
yo fatigo sin rumbo los confines
de esta alta y honda biblioteca ciega.

Enciclopedias, atlas, el Oriente
y el Occidente, siglos, dinastías,
símbolos, cosmos y cosmogonías
brindan los muros, pero inútilmente.

Lento en mi sombra, la penumbra hueca
exploro con el báculo indeciso,
yo, que me figuraba el Paraíso
bajo la especie de una biblioteca.

Algo, que ciertamente no se nombra
con la palabra azar, rige estas cosas;
otro ya recibió en otras borrosas
tardes los muchos libros y la sombra.

Al errar por las lentas galerías
suelo sentir con vago horror sagrado
que soy el otro, el muerto, que habrá dado
los mismos pasos en los mismos días.

¿Cuál de los dos escribe este poema
de un yo plural y de una sola sombra?
¿Qué importa la palabra que me nombra
si es indiviso y uno el anatema?

Groussac o Borges, miro este querido
mundo que se deforma y que se apaga
en una pálida ceniza vaga
que se parece al sueño y al olvido.





Jorge Luis Borges

quarta-feira, 18 de novembro de 2009

Tratado sobre Nietzsche

Bate com as botas no chão com grande estrondo, tenta que as pulgas saltem todas para fora e façam o espectáculo tantas vezes ensaiado. Mas já ninguém faz caso daquelas sandices, é o costume, uns bagaços logo pela manhã resultam sempre no mesmo número de ilusionismo.

— Reparem, hoje vou faiscar pirilampos!

No entanto, como é de dia, as palavras apagam-se. Que tragédia, já não se ganha nem para o tabaco.

terça-feira, 17 de novembro de 2009

VOU DORMIR

Quando me sentei em frente ao computador estava deveras decidida a escrever qualquer coisa decente. Cem minutos roubados aos meus cem anos de solidão integralmente desperdiçados. Não saiu, tão-só, porque não é de sair quando se quer, é de sair quando se sente. Vou dormir.

segunda-feira, 16 de novembro de 2009

OS RUMINANTES



Thomas Adams: uma história algo estranha de andar nas bocas do mundo. De muitos sabores, com ou sem açúcar.

quinta-feira, 12 de novembro de 2009

quarta-feira, 11 de novembro de 2009

ALÔ BRASIU!

Meus amigos desse país tropical - Pernambuco e São Paulo- façam-se ouvir, caraca!

Basta de silêncio. Libertem o vosso grito e digam o que vos vai na alma.

A sério que gostava de poder partilhar das vossas opiniões sobre este nosso cantinho.

DEEM-LHE O TITULO QUE VOS APETECER

Mas mãe, a terra não pode ter sido criada por uma ideia. As ideias existem na cabeça dos homens e foram os homens que criaram Deus e não o contrário. Então e quem é que criou o homem? Perguntava, do alto da sua magistral e inabalável sabedoria maternal? - Não digas disparates, filha, que Deus castiga. Ora, ainda mais essa agora! Já não me bastavam os castigos que carrego nos ombros, vou ter ainda que aguentar com o mau humor divino apenas por ser uma aluna aplicada e ter estudado a lição de ciências. Não entendo nada disto. Querem pôr-nos malucos, é o que é. Uns dizem que é assim, outros que não, e nós que decidamos. Eu sei, também me ensinaram que existe o livre-arbítrio mas, caramba, não poderia ser tudo muito mais simples. Davam-nos a verdade absoluta sem reservas nem contestações e ficava tudo muito certinho e direitinho. Evitavam-se consultas ao psicanalista e cabeçadas na parede para quem o dinheiro tem sinal de interdição na roda alimentar dos cheliques e sentido obrigatório aos bens de primeiríssima necessidade. Se não doesse desmesuradamente e não fosse eu ficar com um tremendo galo, estas paredes que me enclausuram já tinham ido todas ao chão.

NÃO AO DESEMPREGO

A gravíssima crise económica e financeira que está convulsionando o mundo traz-nos a angustiante sensação de que chegámos ao final de uma época sem que se consiga vislumbrar o que e como será o que virá de seguida.

Que fazemos nós, que assistimos, impotentes, ao avanço esmagador dos grandes potentados económicos e financeiros, loucos por conquistar mais e mais dinheiro, mais e mais poder, com todos os meios legais ou ilegais ao seu alcance, limpos ou sujos, regulares ou criminais?

Podemos deixar a saída da crise nas mãos dos peritos? Não são eles precisamente, os banqueiros, os políticos de máximo nível mundial, os directores das grandes multinacionais, os especuladores, com a cumplicidade dos meios de comunicação social, os que, com a soberba de quem se considera possuidor da última sabedoria, nos mandavam calar quando, nos últimos trinta anos, timidamente protestávamos, dizendo que não sabíamos nada, e por isso nos ridicularizavam? Era o tempo do império absoluto do Mercado, essa entidade presunçosamente auto-reformável e auto-regulável encarregada pelo imutável destino de preparar e defender para sempre e jamais a nossa felicidade pessoal e colectiva, ainda que a realidade se encarregasse de desmenti-lo a cada hora que passava.

E agora, quando cada dia aumenta o número de desempregados? Vão acabar por fim os paraísos fiscais e as contas numeradas? Será implacavelmente investigada a origem de gigantescos depósitos bancários, de engenharias financeiras claramente delitivas, de inversões opacas que, em muitos casos, mais não são que massivas lavagens de dinheiro negro, do narcotráfico e outras actividades canalhas? E os expedientes de crise, habilmente preparados para benefício dos conselhos de administração e contra os trabalhadores?

Quem resolve o problema dos desempregados, milhões de vítimas da chamada crise, que pela avareza, a maldade ou a estupidez dos poderosos vão continuar desempregados, mal-vivendo temporariamente de míseros subsídios do Estado, enquanto os grandes executivos e administradores de empresas deliberadamente conduzidas à falência gozam de quantias milionárias cobertas por contratos blindados?

O que se está a passar é, em todos os aspectos, um crime contra a humanidade e desde esta perspectiva deve ser analisado nos foruns públicos e nas consciências. Não é exagero. Crimes contra a humanidade não são apenas os genocídios, os etnocídios, os campos de morte, as torturas, os assassinatos selectivos, as fomes deliberadamente provocadas, as contaminações massivas, as humilhações como método repressivo da identidade das vítimas. Crime contra a humanidade é também o que os poderes financeiros e económicos, com a cumplicidade efectiva ou tácita de os governos, friamente perpetraram contra milhões de pessoas em todo o mundo, ameaçadas de perder o que lhes resta, a sua casa e as suas poupanças, depois de terem perdido a única e tantas vezes escassa fonte de rendimiento, quer dizer, o seu trabalho.
Dizer “Não ao Desemprego” é um dever ético, um imperativo moral. Como o é denunciar que esta situação não a geraram os trabalhadores, que não são os empregados os que devem pagar a estultícia e os erros do sistema.

Dizer “Não ao Desemprego” é travar o genocídio lento mas implacável a que o sistema condena milhões de pessoas. Sabemos que podemos sair desta crise, sabemos que não pedimos a lua. E sabemos que temos voz para usá-la. Frente à soberba do sistema, invoquemos o nosso direito à crítica e ao nosso protesto. Eles não sabem tudo. Equivocaram-se. Enganaram-nos. Não toleremos ser suas vítimas.

terça-feira, 10 de novembro de 2009

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

RAP OU O HUMOR COLORIDO

*Profs....a culpa é deles!*
Neste momento, é óbvio para todos que a culpa do estado a que chegou o ensino (sem querer apontar dedos) é dos professores. Só pode ser deles, aliás. Os alunos estão lá a contragosto, por isso não contam. O ministério muda quase todos os anos, por isso conta ainda menos. Os únicos que se mantêm tempo suficiente no sistema são os professores. Pelo menos os que vão conseguindo escapar com vida. É evidente que a culpa é deles. E, ao contrário do que costuma acontecer nesta coluna, esta não é uma acusação gratuita. Há razões objectivas para que os culpados sejam os professores. Reparem: quando falamos de professores, estamos a falar de pessoas que escolheram uma profissão em que ganham mal, não sabem onde vão ser colocados no ano seguinte e todos os dias arriscam levar um banano de um aluno ou de qualquer um dos seus familiares. O que é que esta gente pode ensinar às nossas crianças? Se eles possuíssem algum tipo de sabedoria, tê-Ia-iam usado em proveito próprio. É sensato entregar a educação dos nossos filhos a pessoas com esta capacidade de discernimento? Parece-me claro que não. A menos que não se trate de falta de juízo mas sim de amor ao sofrimento. O que não posso dizer que me deixe mais tranquilo. Esta gente opta por passar a vida a andar de terra em terra, a fazer contas ao dinheiro e a ensinar o Teorema de Pitágoras a delinquentes que lhes querem bater. Sem nenhum desprimor para com as depravações sexuais -até porque sofro de quase todas -, não sei se o Ministério da Educação devia incentivar este contacto entre crianças e adultos masoquistas. Ser professor, hoje, não é uma vocação; é uma perversão. Antigamente, havia as escolas C+S; hoje, caminhamos para o modelo de escola S/M. Havia os professores sádicos, que espancavam alunos; agora o há os professores masoquistas, que são espancados por eles. Tomando sempre novas qualidades, este mundo. Eu digo-vos que grupo de pessoas produzia excelentes professores: o povo cigano. Já estão habituados ao nomadismo e têm fama de se desenvencilhar bem das escaramuças. Queria ver quantos papás fanfarrões dos subúrbios iam pedir explicações a estes professores. Um cigano em cada escola, é a minha proposta. Já em relação a estes professores que têm sido agredidos, tenho menos esperança. Gente que ensina selvagens filhos de selvagens e, depois de ser agredida, não sabe guiar a polícia até à árvore em que os agressores vivem, claramente, não está preparada para o mundo.

Ricardo Araújo Pereira in Opinião, Boca do Inferno, Revista Visão

terça-feira, 3 de novembro de 2009

Mais um comentário em forma de post

Urgentemente

É urgente o Amor,
É urgente um barco no mar.

É urgente destruir certas palavras
ódio, solidão e crueldade,
alguns lamentos,
muitas espadas.

É urgente inventar alegria,
multiplicar os beijos, as searas,
é urgente descobrir rosas e rios
e manhãs claras.

Cai o silêncio nos ombros,
e a luz impura até doer.
É urgente o amor,
É urgente permanecer.

Eugénio de Andrade

Porque a vida é breve, e frágil...


Esta é a terceira vez que repito este post num blog. A primeira foi na abertura do primeiro blog. A segunda foi lá pelo meio de um outro. (É que a vida, essa sacana, está-nos sempre a lembrar da sua natureza efémera e impermanente. Deve querer ser ouvida, a vida.)
E a terceira vez é esta. Para ti, Mofina. E para quem perceber o meu codiguês.

REBUÇADOS DE MEL

A morte é uma coisa que faz muito mal à saúde
Nada faz pior à saúde do que a morte

Quando ela ataca não há injecções nem xaropes

Que eliminem os seus efeitos secundários

As pessoas vivas desistem das pessoas que morrem

Deixam de as alimentar e de lhes dar vitaminas

De lhes passar cremes hidratantes na pele

Em vez disso enterram-nas de uma maneira profunda

Como se não houvesse nenhuma forma de as fazer acordar


Para mim, o método mais eficaz para não morrer

É manter os pés e as mãos sempre quentes

Os rebuçados da tosse, como fazem bem a tudo,

Também devem ser bons para evitar a morte


Na nossa mesinha de cabeceira deve existir

Um papagaio verde que esteja sempre a falar

E que saiba de cor todos os versos de Shakespeare

Isso sim, é uma atitude sensata

Mas a vida é uma coisa complicada

Porque está constantemente a avariar

Umas vezes é a corrente eléctrica que falha

Outras é a paisagem dos vales e dos rios que é cortada


De qualquer modo é preciso continuar a respirar

Mesmo que a luz se apague

E nos coloquem à cabeça

Uma pesada jarra de flores


2005

quinta-feira, 29 de outubro de 2009

MEA CULPA

Enquanto a malta se preocupa em celebrar as bodas de ouro do Astérix, mais um caso de corrupção e fraude fiscal é levada ao conhecimento público. A verdade é que cada vez mais, os crimes cometidos por quadros superiores de empresas públicas, empresas que são dos cidadãos que, cumpridoramente pagam os seus impostos e, infelizmente, dos que não pagam também, são investigados e levadas à tábua da Justiça. Não é menos verdade que a balança que por lá se usa - na Justiça - não é fiável, ainda assim, somos levados a crer que alguém terá mostrado serviço e justificado o salário auferido, não obstante, poder este vir a ser hipotecado por incumprimento das doutrinas do laissez-faire-laissez- passer. Cada vez mais me capacito que este país jamais terá solução à vista. Não, enquanto as pessoas se acomodarem cobardemente e olharem para o lado enquanto são descaradamente roubados, espoliados do fruto do seu trabalho por todos os que têm poder para o fazer. É tão mais fácil, enfiar-se numa fila interminável de alucinados e, assim, garantir a reserva de um milagroso ingresso para um concerto dos U2, que acontecerá daqui a um ano, se acontecer, se entretanto ao atravessar a rua, um desgovernado TGV não nos levar à frente. É tão mais fácil, acomodarmo-nos em frente ao televisor e regalarmo-nos com tapa-olhos “Fedorentos” e não nos incomodarmos com o facto de mais um qualquer ex-membro governamental ter enchido os bolsos ávidos de enriquecimento fácil e rápido, tendo sido cúmplice de exorbitantes roubos aos cofres do Estado. É tão mais simples ocupar o pensamento com discussões fúteis e estéreis sobre a senilidade ou sageza de um qualquer escritor que lança mais um livro polémico, ou ainda sobre a despudorada atitude de uma qualquer artista brasileira para com o povo português e os seus usos e costumes. Gastamos páginas e páginas de palavras escritas e lidas sobre a constituição do novo governo, sobre os desmandos das sucessivas desgovernações a que somos sujeitos, mas nada passa de palavras que se escrevem, se lêem para logo de seguida serem esquecidas e enterradas no conforto do sofá da sala lá de casa. Acusamos o Governo e o Estado da situação económica do país e esquecemos que a culpa mora ao lado, senão dentro da nossa própria casa. Somos culpados pelo fechar de olhos, somos culpados pelo calar da voz, somos culpados pela conivência silenciosa com todos os crimes cometidos contra o direito ao trabalho e do trabalhador e que, invariavelmente, se reflectem na economia do país. Vivemos num gueto de empresários novos-ricos que avolumam riquezas roubando os seus trabalhadores e os dos outros, repetidas vezes e das mais diversas maneiras. E assistimos calados à violação dos seus mais elementares direitos porque o poder é de quem pode e quem pode é quem manda e quem manda é quem tem dinheiro. Dinheiro que nos foi roubado, que nos é roubado todos os dias, com práticas comercias e fiscais ilícitas, roubado do devido salário que nos é sonegado a coberto da farsa da crise do país ainda que saibamos que nem tudo é crise, que nem tudo vai mal. Admitamos de uma vez por todas que todos somos culpados enquanto calarmos, enquanto olharmos para o lado quando temos obrigação de olhar em frente. Mea culpa, mea culpa, mea culpa.

A HUMANIDADE TEVE CADA INVENÇÃO...


Apesar da minha costela de Mafalda, com a falta de dentes, vou ter de engolir.