quarta-feira, 12 de fevereiro de 2020

Código: DRTF

Lembro-me que havia um rio onde, quase todos os dias, logo pela manhã, íamos ver como corria a vida. Purificávamos os pés e as mãos, só assim podíamos mergulhar até ao fundo do riso e de uma certa memória muito memoriosa, tão repleta de ficções quanto de desconcertantes realidades. E depois disto e daquilo, o poder de encaixa ficava um pouco mais desafinado.  Por precaução, recolhíamos as palavras no resto da couve. Não me digas nada, a tua identidade é privada e está protegida, podes ser a personagem limpa que não precisa de mostrar o rosto nem o perfil. Conhecíamo-nos sem restrições, pelo olfato da escrita, alguma vezes ouvíamos música, a casa dos discus habitava o céu da boca, os peixes andavam sempre à solta, sem a solidão das pedras. Lembro-me, foi há cem anos que as páginas começaram a cair do livro, uma história de comentários lentos, de parágrafos impregnados de chocolate e perfume de flores. Éramos aprendizes imperfeitos e fazíamos amizades que se entrecruzavam, descoberta a descoberta, blogue a blogue.

Lembro-me do rio, talvez fosse nostalgia, raiva, confusão, conflito ou harmonia. Funes sabe que a felicidade é uma coisa pequena. Às vezes é um simples pote de azeite que se parte pelo caminho. A pastora imprudente também anda não se sabe por onde, numa passarola que explode de repente, suspeita-se de um ataque terrorista, mas Washington desmente através da porta-voz brasileira. É tudo um arquivo desgovernado, será necessário analisar a alma de cada pessoa, o seu peso atómico, o seu software, as suas figuras de estilo.

Existe rio. E a mãe do menino azul defende o rio, faz dele a sua causa, empunhando cartazes de luto, de morte. Os peixes, esses, mordem a língua porque já não há como voltar atrás, ao futuro que se pode apagar, basta introduzir o código.

quarta-feira, 5 de agosto de 2015

E se eu fosse um dia o "meu" olhar?

quinta-feira, 30 de julho de 2015

Fénix



"Usa, cada qual, os olhos que tem para ver o que pode ou lhe consentem, ou apenas parte pequena do que desejaria." MC, 75

Blimunda tem curiosos e estranhos poderes. As sensibilidades apuradas fazem-lhe ver por dentro das coisas e das pessoas, quando em jejum.
“Olhaste-me por dentro. Juro que nunca te olharei por dentro. Juras que não o farás e já o fizeste. MC, 49”.

A realidade que possui do certo e errado, do bom e mau, foge aos paradigmas da época. Questiona o sentido das coisas não se submetendo passivamente aos modelos de comportamentos sociais que lhe são impostos. É preciso vencer a cegueira e viver intensamente. Blimunda atreve-se, contra as mentes inquisidoras, a questionar o moralmente aceitável, adoptando comportamentos que vão de encontro aos seus sentidos e sentimentos. Blimunda foge aos padrões da época e aos códigos estabelecidos pela sociedade, tornando-se exemplo de transgressão. É amada por uns e apedrejada por outros.

Pretender ser Blimunda vai para além de pretender ser amiga, companheira, unificadora ou construtora. É pretender cravar em si o esteio de todo um universo e fazê-lo girar como gira o mundo, em movimentos de rotação e translação, capaz de ser noite e dia, de calmarias e de tormentas capazes de destruir represas e assim permitir, na corrente do rio, novos caminhos e outras fontes de vida. Blimunda destrói o arquétipo da mulher omissa e submissa, dependente e escrava, tomando parte das decisões, tendo consciência da sua participação e da importância do seu ser. Sabe que é um dos pilares desse grande sonho, dessa ousada busca de liberdade e felicidade.

Esta é a Blimunda, personagem principal do livro de José Saramago - O Memorial do Convento.

Eu sou apenas alguém que, não desesperando por ser e saber mais do que aquilo que me consentem, procuro sempre cumprir na sua essência aquilo que sei ser e respeitar aquilo que são os outros, quando o sabem.
 

terça-feira, 30 de junho de 2015

COMUNICADO À HUMANIDADE

A Quadratura informa o seu estimado público que ainda não entrou em default. Nem vai em referendos!
Estamos apenas à espera de que o faccebook feche as portas.

sábado, 29 de outubro de 2011

EXIGÊNCIAS LUSITANAS

Qualquer coisinha, tanto faz...

ou seja

Tudo, imediatamente...

terça-feira, 12 de julho de 2011

Professora Até Ontem

"O meu nome é Sónia Mano, até ontem era professora de Matemática na escola E.B. 2,3 de S. Torcato, em Guimarães (onde me encontrava a trabalhar com contrato a termo incerto). Hoje de manhã, por volta das 9h, recebi um telefonema da Secretaria da referida escola a informar-me de que o meu contrato de trabalho cessara no dia anterior.
Até aqui, poderá pensar-se... é uma coisa natural, mais uma professora dispensada do serviço após mais de seis meses de trabalho árduo com alunos oriundos de meios socioeconómicos muito desfavorecidos: Até eu estava já preparada para a eventualidade de receber a notícia nestes moldes. Mas e o que é feito do prazo legal de três dias para avisar um empregado de que o seu contrato vai terminar? Eu sou apenas mais uma das vítimas do Estado e da actual conjuntura que o país atravessa.
Mas o porquê do meu e-mail vai muito para além das queixas para com o sistema. É mais um grito, uma tentativa de que dêem algum tipo de atenção a certas situações que estão a acontecer neste país. Como eu, fomos várias as pessoas dispensadas hoje de manhã, ou melhor, informadas hoje de manhã de que o nosso contrato terminara no dia anterior. Não será isto mais uma vergonha do nosso país? Não há qualquer respeito pelos profissionais, nem pelo seu trabalho e esforço.
Mais acrescento, neste meu desabafo, que iniciei, a meio da semana passada, a correcção de EXAMES NACIONAIS do 9.º Ano! Este trabalho, não está concluído! Termina apenas amanhã, dia 8 de Julho. Entretanto, já amanhã, tenho uma reunião para aferição de critérios de avaliação, reu- nião essa de carácter obrigatório. E agora eu pergunto: O MEU CONTRATO DE TRABALHO E A MINHA LIGAÇÃO AO MINISTÉRIO DA EDUCAÇÃO TERMINOU ONTEM. Como vão os alunos ter avaliação no referido exame? Quem vai suportar as despesas de deslocação de Vila Verde (minha residência oficial) até Guimarães?!
Hoje a minha vontade é não entregar os Exames, mas mais forte do que essa vontade é a necessidade de nunca prejudicar os alunos por causa de mais um erro do nosso sistema de ensino. Amanhã, eu irei suportar despesas de deslocação e voltarei a fazê-lo na sexta para entrega dos Exames. Durante esses dois dias, vou fazer uma aplicação criteriosa dos critérios de classificação. Mas precisava de fazer este desabafo: parem de chamar incompetentes aos professores portugueses, aqueles que lutam todos os dias por melhores condições numa escola cada vez mais pobre em valores, tais como a entre-ajuda e a solidariedade. Ajudem-nos a ajudar os vossos/nossos filhos a crescerem como cidadãos e, por favor, na luta pelos meus direitos enquanto trabalhadora/professora/EDUCADORA. Ajudem- -me a divulgar este caso que é apenas mais uma das vergonhas em que o nosso Estado está envolvido!
Tenho provas e documentos oficiais que comprovam cada uma das afirmações que estou a divulgar. Não sei mais onde me dirigir: é preciso que os portugueses saibam o que se está a passar numa escola pública de Portugal.
Sónia Mano"

quarta-feira, 20 de abril de 2011

HORÓIS DO MAR?

Desde Dom Afonso Henriques que tudo o que temos vem de fora, incluindo o próprio. Sempre nos governamos (e desgovernamos) à custa dos outros: dos escravos da África, das sedas e especiarias das Índias, do ouro do Brasil. A história de Portugal é toda feita de acordos, alianças e tratados interesseiros. A nossa valentia é um mito.

Como é possível ter medo de perder a independência nacional se ela nunca existiu?

É bem provável que tenha chegado a hora de nos humildar. Atitude que, se nos servisse de lição, só nos poderia fortalecer.

segunda-feira, 4 de abril de 2011

Alegrem-se os Céus e a Terra

Nada tenho contra a alegria alheia. Alegra-me saber que é possível a alegria. Alegra-me saber que existem indivíduos que movidos por um entusiasmo individual ou colectivo conseguem subtrair a um estado ecuménico de letargia e morbidez, momentos de prazer e euforia, ainda que, em meu parco entendimento, não sejam esses momentos senão ensaios febris de simples simulacros de felicidade. Enganemo-nos se para alívio das dores o engano seja necessário. Defraudemo-nos com pseudo-vitórias, já que vitórias não serão jamais senão a superação dos limites e fraquezas individuais ou colectivos. Acaso, poder-se-á falar de vitória comemorável quando o trilho percorrido é uma fraude? Sentir-se-ão, efectivamente, vitoriosos aqueles que se enganam a si próprios e aos outros erguendo troféus ganhos à mercê de driblações com a justeza da honestidade e da firmeza de carácter. Não quero questionar a autenticidade da alegria dos que a sentem. Se deveras é sentida o usufruto é de quem sente. Não posso é conceber a alegria nascida do aparente, ilusório e banal, da negligência ou da secundarização do que deveria ser fulcral e essencial. É bem verdade que os conceitos diferem e o que para mim é essencial para o meu vizinho pode perfeitamente ser banal, no entanto, recuso-me a acreditar em vitórias travestidas. Não quero acreditar num povo que hoje reclama alguns desperdícios, e bem, de recursos financeiros por parte da nossa classe política, no entanto aceita, em constante ovação, honrando entusiástica e clamorosamente, gastos de milhões de euros em escoltas e protecção de grupos que integram comitivas futebolísticas e que pelas suas condutas, acumulam todos os requisitos necessários para se classificarem ao nível de qualquer criminoso. Toda a gente tem direito aos seus delírios e cambalhotas pseudoculturais, não tem é o direito de me obrigar a pagar por eles.

sexta-feira, 25 de março de 2011

AGENDA



Hoje começa a época das sestas e das merendas.

Abre a Feira de Março.

PALPITE

Sempre que alguém repete frases do tipo estou de consciência tranquila, devemos desconfiar. No mínimo...

sexta-feira, 18 de março de 2011

Parabéns Amiga!

Que nunca te faltem rosas vermelhas nem borboletas azuis!

Parabéns, MULHER!

sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

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quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

Carta Aberta A Uma Amiga Real

Há palavras que, apesar da sua limitada condição de vocábulos, conseguem carregar em si sentimentos nobres, palavras que endereçadas a alguém falam muito mais do remetente do que do destinatário. Recebi hoje um conjunto dessa maravilhosa invenção do Homem – A Palavra – que me deixou, por longos momentos, sem palavras.

Medito.

Seremos, de facto, aquilo que os outros vêem? Será a condição humana capaz de tanta translucidez? Atrevo-me a admitir que, se não toda, alguma verdade haverá de nós naquilo que os outros de nós vêm, se na hora de mostrar nos despirmos dos artifícios.

Minha amiga real – que real é aquilo que nos faz estrebuchar e acreditar que existimos – permite-me que te lembre que empatia se traduz pela identificação intelectual e afectiva com terceiros, pelo que a mais-valia se reveste de recíprocidade obrigatória. A adivinhação da vontade dos outros só é possível quando essa vontade se passeia lado a lado, mão na mão, com a nossa própria vontade. A discrição e a naturalidade são formas subtis de camuflar o orgulho próprio e a ambição do reconhecimento por parte dos outros da nossa almejada magnificência. A facilidade que imprimimos ao nosso caminhar não é mais que a ilusão da impotência perante o encalacrado emaranho em que nos aprisionámos, no qual construímos o nosso próprio cárcere.

Permite, ainda, minha amiga real, que te lembre que quando espalhamos felicidade à nossa volta é impossível sermos infelizes, já que a felicidade própria não é se não o reflexo da felicidade dos que nos rodeiam.

Minha amiga real e nobre, quanto de nós doamos sem o saber, apenas pelo lamento simples ou profundo de nada termos para oferecer?!

quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

A Flor Que Nos Resta

Amanhece a montanha banhada por gotículas de orvalho
Marulha o rio segredos aos molhos ao insuspeito alecrim
Calça o sopé a frescura espelhada no muro ténue de um tempo
Que enche a alma das gentes e ritualiza o óbito da azáfama

 
De seda e de sol veste a floresta de cor e de sorte
Andorinhas de talhe curado e alegre
Com que se traja a vida e a morte
Depois do sal e do vento agreste

 
Das brumas do ido tempo primaveril
Bafeja o vento, a nuvem e o desnorte
Esvoaçam estilhaços de dor pueril
Gritos e vozes ladeados de má sorte

 
São vezes de mais as vezes em que a voz nos grita de dentro
Embustes os sonhos esmagados em céus incandescentes
Infinitas as horas de ardência pungente
Em sepultadas tardes de lânguidas sestas florais

 
São vezes de menos as vezes em que grita a floresta
Promessas que alteiem a vontade estoicamente
Querenças reencontradas florescendo na estepe do sentimento
Reerguendo a flor que não se foi e que nos resta

terça-feira, 11 de janeiro de 2011

quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

Tudo vai do começar!

Li, recentemente, algures que a dificuldade reside no começar já que o que se começa escorre facilmente para o fim. Na fracção de segundo que sucede o início, acontece um novo início, desta feita, o do inevitável fim. Não sei se se trata ou não de uma verdade insofismável, sei, no entanto, que o início pode não acontecer mas acontecendo o fim é fatal e antevê-se em qualquer percurso existencial. Desengane-se quem pensa que o fim acontece antes da sua hora. Acontecerá, é certo, quando tiver que ser.

Acabo de comprovar a teoria da dificuldade no começar. De facto, comecei qualquer coisa mas não o que queria começar. Posso dizer que comecei uma tentativa de começar. Frustrada.

quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

REPORTAGEM EM DIRECTO

O tornado deitou abaixo todas as paredes do armazém e nem o telhado resistiu.

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

terça-feira, 26 de outubro de 2010

POBREZINHOS MAS EM GRANDE

Durante séculos e séculos, sem assinaláveis resultados, andámos à traulitada com os castelhanos para os enxotar daqui para fora. Mas agora sim, com as portagens, vamos conseguir, de uma só penada, que eles se mantenham a milhas. Tão cedo não vamos ver invasores por estas bandas, sejam suevos ou visigodos. Afinal, estrangeiros para quê, se temos lojas chinesas para dar e vender?
Entrar em Portugal sai caro, não é para qualquer um! Estará o país transformado num beco sem saída? Óbvio que não. Veja-se como nós, bravos descendentes de Viriato, aguentamos, sem apelo nem agravo, o preço das nossas estradas.
Turistas? Que venham de avião, ora essa...